Lituânia: um segredo guardado nos Países Bálticos

A pequena Lituânia tem o maior centro histórico barroco da Europa, cervejarias artesanais, cenários lindos e artistas doidões que criaram uma república imaginária

Aquela tarde foi atípica no austero centro de informações turísticas de Anyksciai. Ainda que o festival mais extremo de heavy metal do Leste Europeu – o Devilstone Open Air – traga forasteiros a esse confim da Lituânia a cada verão, devo ter sido a primeira a demonstrar tão ávido interesse nos pormenores daquela cidadezinha de 12 mil habitantes. A funcionária não procurou saber o motivo pelo qual esgotei seu acervo de DVDs e libretos. Mesmo assim, contei que foi ali pertinho, entre aqueles pastos e bosques farfalhantes, que nasceu a minha saudosa avó materna, Julijonas Meskauskas. E que ela e meu avô, que é lá de Siauliai (ao norte), imigraram, adolescentes, ao Brasil, jamais se naturalizaram e comeram kugelis e sopa fria de beterraba a vida inteira, sabe, moça?

A terra de dona Julijonas e seu Petras integra a União Europeia desde 2004, e, neste 1º de janeiro, deu adeus à lita, abraçando o euro. Ainda assim, essa pequena nação à beira do Báltico, de menos de 3 milhões de habitantes e que, até 1991, foi parte da União Soviética, continua sendo um mistério para boa parte da humanidade. Com uma cena artística vibrante, o maior centro histórico em estilo barroco da Europa e um aeroporto em que pousam voos low-cost vindos de todos os países do continente, é louvável que a capital Vilnius (ou Vilna) ainda mantenha o seu jeitão de rota alternativa e que os vilarejos do interior sejam ilustres desconhecidos. Aí mora parte do charme lituano.

Tombado como Patrimônio Universal pela ONU, o centro histórico de Vilnius é um primor. O Gate of Down, portal do século 16, está impecavelmente preservado como uma das entradas da cidade murada. Incontáveis igrejas e casarões em tons pastel são permeados por um novelo de ruelas, becos e praças – tudo muito delicado. A imponência das construções é fruto de um passado de glória: a Lituânia já foi um império, englobando Ucrânia, Bielorrússia, Letônia e um bom naco da Estônia e da Rússia. Em aliança com a Polônia, chegou a avançar quase até o Mar Negro, sob domínio do grão-duque Gediminas e, posteriormente, de Vytaustas, “o Grande”, os dois heróis nacionais. No século 16, Vilnius era uma das maiores e mais poderosas cidades da Europa Oriental, com 25 mil habitantes.

 

 Panorâmica de Vilnius, capital da Lituânia (foto: iStock)

 

Cristãos e não cristãos

O lituano foi o último povo pagão da Europa (bruxas e entidades mágicas ainda fazem parte da mitologia local), sucumbindo ao cristianismo apenas no século 15, por influência da Polônia. Mas hoje é quase irreal a quantidade de igrejas no centro histórico e o fervor com que os lituanos abraçaram a causa cristã, especialmente após o fim dos anos de repressão religiosa nos anos soviéticos. Entre a senhora a varrer o chão curvada sobre uma vassoura sem cabo, o corpo de dois santos embalsamados dentro de uma urna de cristal e o grupo de fiéis que chorava e rezava copiosamente, visitar a Igreja Ortodoxa do Espírito Santo foi uma experiência e tanto. Outra memorável é a católica de Santa Anne, do século 17, de tijolinhos à vista, a mais espetacular da cidade.

No Centro de Vilnius também impressiona a elegância com que desfilam hordas de sílfides de olhos azuis, envoltas em modelitos feitos do célebre linho lituano. Já nos bairros periféricos, coques besuntados de laquê ainda adornam certos cocurutos, e o ouro insiste em reluzir nas arcadas dentárias. Da mesma forma, não falta à cidade aquele quê de decadência típico dos antigos países da União Soviética. Grande parte dos monstrengos de concreto da era comunista foi demolida. Mas alguns, caso do Ópera Nacional e do palácio dos esportes, seguem em pé, bem como os horrendos blocos de edifícios residenciais dos bairros de classe média.

Há outras horripilâncias. Na Segunda Guerra, a comunidade judaica que vivia no antigo gueto foi no início perseguida pelos soviéticos e posteriormente massacrada durante a ocupação nazista – com a condescendência da população. Conhecida como “Jerusalém do Norte”, Vilnius chegou a abrigar 100 mil judeus no século 19. Hoje restam apenas 3 mil. O Museu das Vítimas do Genocídio, que ocupa o antigo QG da KGB, conta a história do extermínio de 475 mil lituanos por parte da URSS em meio século de ocupação.

 

 Tarde adorável no Centro Histórico de Vilnius (foto: iStock)

 

Movidos a lúpulo

Cercando o belíssimo Bulevar Vokieciu, o antigo gueto é o bairro mais badalado da cidade. Ali estão alguns dos melhores bares e restaurantes, ideais para um encontro com a gastronomia lituana (ou um confronto, dependendo do seu paladar). Se você não gosta de dill, começamos mal: o temperinho verde, também conhecido como aneto, está em todo lugar. Ir ao supermercado também é uma pequena aventura exótica. Você descobre que o mundo não é tão globalizado assim ao precisar da ajuda de um estranho para identificar uma simples barra de manteiga. Menos mau que a grande maioria dos jovens fala bem inglês.

De todo o impronunciável dicionário lituano, só consegui memorizar coisas como labas (oi), baras (bar) e alus (cerveja). Elementar. Nesse país movido a malte e lúpulo, as doses costumam vir em baldes, e é praxe que um bom baras tenha pelo menos uma dezena de marcas a oferecer. Depois da ocupação soviética, a partir de 1940, o governo russo proibiu a produção caseira de cervejas para empurrar vodca goela abaixo. Com a independência, as microcervejarias foram reativadas com fervor. Meu baras favorito, Bambalyné, vende mais de 50 tipos de espumosas locais e tem pinta de adega milenar.

Não foi por causa do excesso de alus que, em quatro dias circulando pela cidade, cruzei cinco vezes com o mesmo sujeito de cartola que pedalava um monociclo. Parecia alucinação, mas era só o resultado de estar numa cidade diminuta, a despeito do meio milhão de habitantes. Tudo o que interessa em Vilnius está ao alcance das pernas. Também há uma rede de ciclovias de 80 quilômetros, xodó do prefeito Arturas Zuokas – que, num vídeo que rodou o mundo, aparece esmagando um Mercedes estacionado na faixa de ciclistas.

Do alto da Colina de Gediminas, você verá como Vilnius está praticamente imersa num grande bosque. Verdíssima, é cortada pelo Rio Neris e outros riachos em que, nos poucos meses de calor, os moradores pescam, andam de caiaque e até nadam. O verão em Vilnius é vivido com sofreguidão. Em junho, quando estive na cidade, escurecia depois das 11 da noite e, lá pelas 3 da madrugada, o sol voltava a raiar. O céu azulíssimo não chegava a ficar totalmente negro. Bares com mesas ao ar livre fervilhavam de gente. O lugar mais pop nos arredores é o Lago Galve, na cidadezinha de Trakai, a 30 quilômetros de distância. Ali está um dos maiores cartões-postais do país, o castelo gótico de tijolinhos vermelhos que foi berço do grão-duque Gediminas no século 14. O lugar tem uma pegada tão conto de fadas, cercado pelo laguinho, que quase não parece de verdade. E, de certa forma, não é mesmo: os alicerces datam de 1362, mas o que se vê hoje foi reconstruído ao longo do século passado, guardando algumas peças históricas no interior. Porém, o que interessa é a beleza do conjunto. Tem menininhas louras de trança fazendo piquenique, casais em pedalinhos e senhoras roliças vendendo tortas. A estrada até lá é verdinha, floridinha, ladeada de fazendinhas… Com disposição, vale embalar mais 80 quilômetros e dar uma volta em Kaunas, cidade universitária com um centro histórico respeitável.

 

 Panorama da República de Uzupis, uma nação à parte dentro da Lituânia (foto: iStock)

País de mentirinha

Também dá pra viajar sem sair de Vilnius. Cruzando o Riacho Vilnia (ou Vilnelé), de preferência pela ponte onde os cadeados selam juras de amor eterno, entra-se num mundo à parte. A República de Uzupis (“além do rio”) foi declarada independente em 1997. Para o governo da Lituânia, isso não fez a menor diferença. Mas quem se importa com isso? A nação uzupiana tem hino nacional, presidente e bandeira. De seus 7 mil habitantes, uns mil são artistas e afins. “Quando vim morar aqui, a via principal era chamada de Rua da Morte”, conta o cineasta e poeta Romas Lileikis, presidente de Uzupis. “Mas depois os artistas foram ocupando as casas decrépitas e o bairro deixou de ser infrequentável para se tornar um lugar de inspiração.” Por via das dúvidas, Uzupis comemora sua independência no Dia da Mentira, 1º de abril. Na data solene, Lileikis faz discurso e guardas com roupas absurdas carimbam os passaportes dos visitantes. A constituição, “baseada em paradoxos”, é impagável. Entre os 41 artigos, “todo mundo tem o direito de ser feliz”, mas… “todo mundo também tem o direito de ser infeliz”. Why not? Todo mundo ainda “tem o direito de observar a sua desimportância” e… “de estar em dúvida, ainda que isso não seja uma obrigação”.

Visual e espiritualmente, o bairro lembra um pouco Christiania, a república anarquista dentro de Copenhague. Os grafites colorem os muros e obras de arte saltam de todo canto. Repare, por exemplo, na deslumbrante sereia que observa o rio ao lado da ponte dos cadeados. E tem o Uzupis Art Incubator, bastião do movimento artístico local, que mantém uma incubadora de jovens artistas, além de uma galeria em que rolam exposições vanguardistas.

Nas quebradas do “país”, algumas casas parecem em vias de sucumbir. Ao mesmo tempo, a região vem ganhando lojas e restaurantes bacanas. Pilotado por um cidadão de bigodes frondosos eternamente sob um chapéu de palha, o Snekutis é um dos ícones do bairro. De fora, o bar parece uma cabana abandonada no meio de um bosque. Por dentro, é “decorado” com uma quantidade insondável de quinquilharias, de serrote a lampiões, num esforço para parecer o menos hipster possível – em vão. No verão, as mesas no jardim lotam de gente moderna e seus respectivos cães labrador. Chega-se até ali subindo a ladeira protegida pela magnífica estátua do anjo que é o guardião dessa gente livre e feliz. Ou não, porque, afinal de contas, todo mundo tem o direito…

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